Ex-portelense, André Silva, lidera o PAN
«Cada vez mais pessoas se juntam às causas»
16 de dezembro de 2015
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Pertence ao PAN desde 2012. O que o impeliu a abraçar esta causa?
Tenho memórias fortes dos meses de férias na aldeia, em casa dos meus avós, que eram agricultores, em Vilar de Besteiros, no concelho de Tondela. De amassar e cozer broa, malhar feijão a Mangualde, descamisar milho em comunidade, encabar cebolas, vindimar e pisar as uvas, apanhar batata, ir às pinhas com enormes carros de mão de madeira, abrir a poça e regar descalço os campos ao fim da tarde. Dos dias grandes.
Mas também me recordo de outras formas de tratamento dos animais que me despertaram a consciência e que me fizeram, mais tarde, chegar ao Pessoas-Animais-Natureza (PAN). Para além das recordações do trabalho do campo e da componente bucólica e romântica da vida na aldeia, tenho viva as experiências nas explorações pecuárias intensivas de aves e de bovinos, que já eram na altura uma realidade.
Estudar em Coimbra (Engenharia Civil) permitiu-me adquirir uma consciência política nos ambientes das tertúlias e de discussão constante, nessa altura ainda vivia à margem dos movimentos partidários convencionais. Fui voluntário e vice-presidente da Linha SOS Estudante, um serviço de atendimento telefónico de apoio emocional e de prevenção do suicídio.
Estou no PAN desde o início de 2012, não tinha filiação partidária anterior porque, de repente, percebi que os animais estão no fim da linha, na medida em que ninguém está a assegurar a sua proteção. Depois de ler o manifesto do PAN, assumi o compromisso comigo de contribuir para que o partido fosse o mais longe possível. Acredito que o PAN tem um papel a desempenhar no aprofundamento da democracia em Portugal. E só o podemos fazer defendendo ativamente as três causas (humana, animal e ecológica) como uma só, pela sua indissociabilidade e mostrando, pelo exemplo, que uma democracia mais participativa é possível e desejável e que, através da mesma, se contribui para uma existência mais harmoniosa, em respeito pelo próximo, humano ou não humano, bem como pela natureza.
O que difere o PAN do partido Os Verdes?
O mesmo que nos difere de todos os restantes. O projeto de sociedade que promovemos baseia-se num novo modo de estar e trabalhar em sociedade e na política. Baseia-se também na promoção da não violência em todas as nossas medidas, tal como na perceção que os problemas atuais não poderão ser resolvidos com o mesmo pensamento que os originou. Manter uma economia baseada em crescimento infinito, em consumo irracional, num planeta com recursos finitos é uma utopia. Da mesma maneira a interligação das três causas basilares do PAN, as pessoas, os animais e a natureza, mostram que só com políticas integradas conseguiremos transitar para um modelo civilizacional sustentável, que respeite a nossa casa mãe, o planeta Terra.
Portela
Morou na Portela. Quais as principais características deste bairro?
Agradável, com bastantes espaços verdes cuidados, limpo, com uma escala humana aprazível, um centro comercial com comércio local dinâmico e com uma vasta oferta de serviços e comércio. Calmo e nos últimos anos ganhou bastantes equipamentos urbanos, que acrescentam valor e bem-estar aos seus habitantes
O que alteraria?
Nada. Os cidadãos têm promovido boas alterações ao bem-estar comunitário, por tal vejo que em união conseguimos adaptar-nos e melhorar.
O que o fez abandonar a Portela?
O desafio que abracei de estudar Engenharia Civil na Universidade de Coimbra.
Que recordações leva deste bairro?
Boas e profundas. Saí com 18 anos e nessa altura o bairro tinha muitas pessoas da minha faixa etária, pelo que havia sempre algo a ocorrer na rua, entre amigos. Foi o bairro onde cresci e, nessa altura, quase todos os miúdos ainda brincavam e jogavam na rua, ao contrário do que sucede hoje em dia, e guardo essas recordações. De ruas cheias de crianças a brincar. Lembro-me também da Portela ainda com muitos espaços não tratados com jardins, a que chamávamos as “terras”, o espaço que mediava a Portela e Sacavém, para onde íamos brincar no meio da natureza às “escondidas” e a “explorações no meio da floresta” (mato que existia). Lembro-me também das idas à mata do Seminário, enorme e cheia de encanto, de brincar nos jardins do Palácio, de apanhar sementes de palmeira, germiná-las e replantar, de apanhar folhas de amoreira às escondidas do vigilante para dar aos bichos-da-seda.
Sente que a Portela trata bem as pessoas, os animais e a natureza?
A Portela é um bairro muito agradável onde se vive com qualidade, no que respeita ao conceito de vida urbana entenda-se. Fiquei bastante triste com a redução do Seminário para construção de vias rápidas de um lado e de prédios habitacionais do lado oposto. Este espaço verde, importante do bairro, agora inacessível, não deveria ter sido destruído.
Eleições
Apesar de o PAN ser um partido dos animais e da natureza, os resultados das legislativas tiveram mais impacto nas zonas urbanas. Como explica que o tecido urbano tenha dado mais apoio que o rural?
Somos mais fortes nas regiões onde temos estruturas locais e regionais, pelo que, naturalmente, a expressão é ligeiramente superior em meios urbanos. Porém com uma maior exposição mediática a nível nacional, com a entrada na Assembleia da República e o profundo impacto que temos nas redes sociais, a página do PAN é a maior de todos os partidos em Portugal, temos a certeza que mais cidadãos e cidadãs das urbes e do mundo rural nos apoiarão.
Os resultados no concelho de Loures e na freguesia de Moscavide e Portela foram superiores à média nacional. Deve-se a algum factor extra, como ser um ex-munícipe?
Creio que não. O PAN fez uma boa campanha de proximidade com os cidadãos, o que certamente teve impacto nos resultados desta região.
Acredita que o PAN poderá ser uma presença assídua no Parlamento, que este mandato se repetirá mais vezes?
Sentimos diariamente que, cada vez mais, cidadãos e cidadãs se revêem nesta nova forma de estar e fazer política. Com rigor e pela positiva trabalhando em soluções reais e tangíveis para pessoas, animais e ecossistemas. Estamos cientes da responsabilidade e da exigência de entrarmos na Assembleia da República, mas também sabemos que mais pessoas se juntam às causas que defendemos, pelo que estamos certos que seremos no Parlamento não só uma presença constante mas também crescente, com mais deputados e impacto a cada eleição.
Parlamento
Quais são os grandes objectivos do Partido no Parlamento?
O PAN é um partido de causas, defendemos uma política integral e interligada entre pessoas, animais e todos os ecossistemas. Tendo esta premissa como base, as nossas principais linhas programáticas tocam várias áreas da sociedade portuguesa, nas diversas vertentes que integram a nossa ideologia – Pessoas, Animais e Natureza - nomeadamente a biodiversidade, saúde pública e o ambiente.
Neste sentido, as propostas do PAN para a governação durante esta legislatura visam contribuir para colocar na agenda política e mediática temas transversais e fundamentais à nossa sociedade. A chegada do PAN ao parlamento, com a eleição de um deputado, mostra existir um crescente número de portugueses que têm a expectativa de ver discutido na casa da democracia temas que não têm beneficiado da atenção dos restantes partidos, os quais são fundamentais para a promoção de prosperidade social e para o bem-estar de pessoas, animais e natureza.
Ao longo dos próximos quatro anos pretendemos desenvolver um trabalho parlamentar de qualidade, de modo a que os portugueses possam avaliar positivamente os nossos contributos, e possamos, futuramente, reforçar a nossa presença na Assembleia da República com mais deputados eleitos, que em muito virão beneficiar o trabalho a desenvolver pelas Causas e Valores PAN.
Votou a favor da Moção de Censura ao Governo. Qual a razão?
O sentido de voto teve como primeiro critério as causas e valores do partido, recordando que o PAN não se revê nos enquadramentos deterministas à esquerda, centro ou direita – os quais serão sempre reducionistas - e que este voto prende-se, exclusivamente, com a análise das propostas do programa apresentado pela PàF, à luz daqueles que são os princípios que organizam as causas e valores do PAN.
Apesar da proteção animal ter merecido uma nova atenção no programa apresentado pela Coligação, o PAN identificou várias lacunas, omissões e pontos nos quais o partido não se revê.
Foram colocadas nesta discussão oito perguntas concretas pelo PAN com o objetivo de obter respostas claras, o que infelizmente não aconteceu. O Dr. Passos Coelho, na altura Primeiro-Ministro, não respondeu à nossa pergunta sobre a inclusão das terapias não convencionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS), nem à nossa questão sobre organismos geneticamente modificados (OGM’s), o mesmo aconteceu com o pedido de esclarecimento que fizemos sobre a eventual privatização do sector das águas.
No momento em que questionámos sobre o estatuto jurídico dos animais - o deixar de os considerarmos como coisas e a possibilidade de dedução das despesas médico-veterinárias no IRS - a resposta foi remetida para o quadro vigente (das despesas gerais), equiparando os animais a outros artigos do quotidiano, como por exemplo, relógios de pulso ou a peças de vestuário.
Durante os dias de discussão do programa, verificou-se ainda uma evidente ausência de entendimento, por parte do governo, das questões relacionadas com o impacto da violência da Tauromaquia nas crianças, com o desemprego estrutural e tecnológico - que se reporta a cerca de um milhão de portugueses, que se encontram atualmente excluídos do mercado de trabalho de forma permanente - e sobre o controlo das emissões de gases de efeito de estufa, mais especificamente relacionados com o controlo das emissões de metano, cujo impacto é predominante para o aquecimento global.
Posto isto, o PAN reconheceu que o programa trazia algumas propostas que indicam ligeiros ajustes ao desagravamento dos sacrifícios que foram pedidos aos portugueses. Contudo, ao aprofundar com mais detalhe, é manifesta a linha de continuidade ao rumo seguido durante os quatro anos anteriores, acentuando-se cada vez mais a preponderância da lógica de mercado em detrimento da qualidade de vida das Pessoas, do bem-estar dos Animais e da Sustentabilidade da Natureza.
Ao olharmos para as pessoas apenas como recursos, estamos a fazer com elas aquilo que já fazemos com os animais e com a natureza. Essa não é de todo a visão do PAN.
Autárquicas
Passa pela estratégia do Partido apresentar listas às eleições autárquicas?
Certamente. O PAN é promotor de uma democracia representativa, mas acima de tudo participativa. Por tal, as eleições autárquicas são fundamentais, pois aproximam e integram os cidadãos aos centros de debate e decisão. Podemos ver pelo exemplo de Lisboa, onde apenas um deputado municipal, Miguel Santos, conjuntamente com o PAN Lisboa, conseguiu implementar várias medidas no bem-estar animal (e.g. término de licenças para circos com animais na capital), na protecção ecológica (e.g. fim da utilização de glifosato) e no bem-estar público (e.g. na mobilidade criação de um sistema de BikeSharing em Telheiras).
O PAN é a favor da Reorganização Administrativa?
Esta questão está em debate em sede de Comissão Política Nacional, pelo que é prematuro tecermos uma análise definitiva sobre o tema.
Como encara a recente privatização da EGF e, consequentemente, da Valorsul?
As políticas de privatização têm por norma objectivos a curto prazo que se restringem a visões economicistas da complexa realidade socioeconómica atual. Serviços basilares para uma nova economia, como a sensata gestão de resíduos urbanos, devem manter-se na esfera pública, para que sejam rentáveis mas, acima de tudo, para que beneficiem as comunidades e os ecossistemas locais/regionais. A privatização destes serviços é um atestado de incompetência, injusto e prejudicial, à boa gestão pública feita por inúmeros cidadãos e cidadãs.
Apesar da proximidade de Lisboa, com quem faz fronteira, o concelho de Loures tem uma zona rural de grande dimensão. De que forma esta característica pode ser uma mais-valia?
As políticas do PAN têm sempre em conta a gestão inteligente dos recursos, pelo que esta interligação local é de vital importância. Devemos premiar a produção, distribuição e consumo de produtos locais/regionais biológicos e sem organismos geneticamente modificados. Só assim reforçaremos a soberania alimentar e a saúde pública. Esta aposta trará também uma redução do impacto ambiental, de importarmos bens, que facilmente podemos produzir em localidades vizinhas. A simbiose destas localidades e este novo modo de pensar a economia e a vida comunitária levarão a eficientes sinergias entre populações e actividades económicas.
Pedro Santos Pereira